A devolutiva é a etapa 7 da avaliação psicopedagógica, e é a única que a pós-graduação praticamente não ensina. Este é o roteiro que eu uso, minuto a minuto, com as frases que digo, as que eu não digo mais e os pontos onde a conversa costuma desandar.
A avaliação tem nove etapas, do primeiro contato com a família até os encaminhamentos. As seis primeiras você aprendeu na pós. A sétima, que é quando você senta com o pai e a mãe e diz em voz alta o que encontrou, quase ninguém ensina. Este roteiro é sobre ela, e ele nasceu de quinze anos entregando devolutiva, inclusive das vezes em que eu fiz errado.
Metade do resultado da devolutiva se decide aqui, quando ainda não tem ninguém na sua frente.
Os tempos são referência, não cronômetro. O que importa é a ordem, porque cada bloco prepara o seguinte.
A família chega tensa, e boa parte dessa tensão não é sobre o filho, é sobre ela mesma, porque quase todo pai e toda mãe entram nessa sala achando que vão ouvir onde erraram. Se você começa pelo resultado, fala com alguém que ainda está se defendendo e não escuta.
Antes de falar do que eu encontrei, quero combinar como vai ser. Eu vou te contar o que a gente fez, depois o que apareceu, e no final a gente decide junto o que fazer. Se em algum momento eu falar alguma coisa que não fizer sentido, me para na hora.
Antes de qualquer conclusão, a família precisa entender que você não chegou nela por impressão. Recapitule o caminho, que no meu método são as etapas de anamnese, observação lúdica, aplicação de instrumentos e cruzamento com escola e família, em linguagem de gente e não de protocolo.
A gente se encontrou quatro vezes. Nas duas primeiras eu só brinquei e conversei com ele, sem teste nenhum, porque eu precisava ver como ele funciona quando está à vontade. Depois eu apliquei os instrumentos e conversei com a professora. O que eu vou te contar agora vem do cruzamento de tudo isso, não de um teste só.
Este é o bloco que a família vai lembrar. A regra que eu sigo é simples de dizer e difícil de fazer: descreva como aquela criança aprende, o que sustenta ela e o que derruba ela, antes de nomear qualquer coisa. Comece sempre pelo que funciona bem, porque uma família que ouve primeiro uma qualidade real do filho consegue escutar a dificuldade que vem depois.
Uma coisa que me chamou atenção é que quando ele entende o combinado, ele cumpre. O problema não é vontade, e isso muda tudo no que a gente vai propor.
O que eu vejo aqui é um conjunto de sinais que aponta numa direção, e essa direção precisa ser confirmada por quem tem essa atribuição. Eu não fecho diagnóstico, eu levanto hipótese com base no que avaliei, e a minha hipótese é essa. O que eu posso te garantir hoje, independente do nome que isso vá receber, é o que ele precisa para aprender melhor a partir de agora.
Toda devolutiva que termina só em informação vira angústia. A família precisa sair com ação, e ação em três frentes, que são casa, escola e acompanhamento. E aqui vale uma regra que eu aprendi errando: no máximo três combinados para casa, porque família que recebe quinze recomendações não faz nenhuma.
Eu vou te pedir três coisas só, e nenhuma delas custa dinheiro. Se em um mês essas três estiverem acontecendo, a gente já vai ter mudado alguma coisa. Depois disso a gente conversa de novo e ajusta.
Existe sempre uma pergunta que a família trouxe e não conseguiu fazer, e ela quase nunca é sobre o teste. Abra o espaço de forma explícita e depois aguente o silêncio, porque é dentro do silêncio que a pergunta de verdade aparece.
Ele vai ser normal? A pergunta que eu consigo responder é outra, e acho que é a que te interessa de verdade: ele vai conseguir aprender, sim, e ele vai precisar de um jeito diferente do que a escola oferece por padrão. Isso não é sobre ele ser menos, é sobre o caminho ser outro. E esse caminho a gente já sabe começar.
Devolutiva que termina em agradecimento acaba ali. Devolutiva que termina em data continua. Feche resumindo em três frases, entregue o relatório agora, e combine quando vocês se falam de novo antes de a família levantar da cadeira.
Você vai sair daqui com muita informação e é normal que metade caia a ficha só amanhã. Por isso a gente já marca a nossa conversa de retorno agora, e nesse intervalo, se surgir qualquer dúvida, você me manda mensagem. Ninguém precisa segurar isso sozinho até lá.
Se algum bloco aí em cima te lembrou de um caso específico, é exatamente sobre isso que a gente conversa na mentoria.
Quero entender como funcionaNenhuma delas é mentira. Todas elas chegam na família de um jeito que atrapalha.
Aqui eu te dou o princípio que uso em cada um. A condução fina depende do caso, e é por isso que isso se treina supervisionando, não lendo.
O pai cruza os braços e diz que em casa é tudo normal, que na família dele todo mundo falou tarde, que a escola está exagerando. Discutir com ele é perder a conversa, porque negação nesse momento raramente é teimosia, é defesa contra medo.
Não peça concordância com a hipótese, peça concordância com um fato observável que ele já reconhece. Você constrói acordo sobre o que é visível antes de voltar a falar do que é interpretativo, e volta em outro encontro.
Ela chegou com o nome decidido, muitas vezes pela internet, e o que ela quer de você é assinatura. Quando a sua avaliação não confirma, você está entre decepcionar a família e faltar com a ética.
Nunca negue o nome logo de cara, porque negar o nome soa como negar o sofrimento que levou a família até ele. Valide a preocupação, mostre o que a avaliação de fato encontrou e devolva o cuidado que a família estava buscando, com outro nome.
Um responsável quer intervir, o outro quer esperar, e a discussão que já existia em casa acontece dentro da sua sala. Se você toma partido, perde um dos dois, e você precisa dos dois.
Saia do mérito e volte para o combinado. Proponha uma ação pequena, de prazo curto, que os dois consigam aceitar sem abrir mão da própria posição, e marque a reavaliação. O tempo curto resolve o que o argumento não resolve.
Eu prefiro ser direta com você sobre o que este material não faz, porque prometer demais em PDF é o tipo de coisa que eu não faço com família e não vou fazer com colega.
Na mentoria eu acompanho psicopedagogas e neuropsicopedagogas de perto, olhando para os casos reais que estão na sua agenda, com escuta individualizada e sem julgamento. É onde a gente trabalha a devolutiva difícil, a hipótese que você não sabe se sustenta e o relatório que precisa sair essa semana.